“NO CRONO, APERTO UM COLHÃO CONTRA O OUTRO… E VOU À MORTE.”
— David Blanco
É assim que gostaria de ver, hoje, o Eulálio…
A olho, parece-me potente.
Tem quadríceps, senta-se bem na bicicleta, transmite força. Não parece daqueles corredores que apenas sobrevivem na subida; parece alguém capaz de aplicar desenvolvimento forte no pedal.
E um bom contrarrelogista nasce exatamente dessa soma:
potência no limiar, aerodinâmica e elevada potência aeróbica.
No fundo, quanto mais próximo o limiar estiver da potência aeróbica máxima — e quanto maior for o VO2 Max — maior será a capacidade de sustentar velocidade sem entrar em colapso precoce.
Um bom trepador precisa disso tudo… mas precisa ainda de outra coisa:
um IMC que lhe permita uma relação peso/potência excecional e um VO2 Max elevado por quilo de peso.
Diz-se que o Eulálio é leve.
Também Jonas Vingegaard é leve.
A FÍSICA EXPLICA…
Para acelerar um corpo leve, é necessária menos potência do que para acelerar um corpo pesado à mesma velocidade.
O corredor mais pesado pode possuir maior potência absoluta — vantagem evidente em plano —, mas também apresenta maior superfície frontal.
E no contrarrelógio, quase tudo se paga ao vento.
Cerca de 80% da potência é gasta a vencer a resistência aerodinâmica. E quanto maior a velocidade, maior parece soprar o vento de frente… mesmo quando não há vento nenhum.
É aí que a diferença entre 48 e 50 km/h deixa de parecer pequena.
Se o Vingegaard fizer um crono de 50 minutos a 50 km/h, o Eulálio, para perder apenas dois minutos, terá ainda assim de andar perto dos 48 km/h.
Parece pouco.
Mas não é.
No contrarrelógio, 2 km/h representam um abismo fisiológico.
A resistência do ar cresce brutalmente com a velocidade, e cada quilómetro horário adicional exige uma quantidade quase absurda de watts.
Passar de 48 para 50 km/h pode significar dezenas de watts suplementares sustentados durante quase uma hora.
Por isso, perder apenas dois minutos para um especialista destes seria já um enorme contrarrelógio.
Os grandes cronomen modernos deixaram de ser apenas “roladores pesados”. Hoje, homens leves como Vingegaard conseguem unir:
baixo peso;
enorme VO2 Max relativo;
excelente aerodinâmica;
e uma capacidade quase sobre-humana de sustentar potência próxima do máximo aeróbica.
O segredo não é apenas ser leve.
É ser leve… sem perder potência absoluta.
E o Eulálio, pelo menos ao olhar, parece ter isso:
estrutura de trepador, mas com densidade muscular e capacidade de empurrar.
E talvez o David Blanco tenha definido melhor do que ninguém o verdadeiro contrarrelógio:
Não há segredos
Há apenas um homem, uma máquina, o vento…
e a dolorosa sensação de apertar um colhão contra o outro enquanto se vai à morte.
Vamos esperar…para ver depois.
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